segunda-feira, 8 de abril de 2013

Vila Rica- Poema de Cláudio Manoel da Costa

VILA RICA

Canto VI
Levados de fervor, que o peito encerra 
Vês os Paulistas, animosa gente, 
Que ao Rei procuram do metal luzente 
Co'as próprias mãos enriquecer o erário. 
Arzão é este, é Este, o temerário, 
Que da Casca os sertões tentou primeiro: 
Vê qual despreza o nobre aventureiro, 
Os laços e as traições, que lhe prepara 
Do cruento gentio a fome avara.

A exemplos de um contempla iguais a todos,
E distintos ao rei por vários modos
Vê os Pires, Camargos e Pedrosos,
Alvarengas, Godóis , Cabrais, Cardosos,
Lemos, Toledos, Pais, Guerras, Furtados, 
E os outros, que primeiro assinalados
Se fizeram no arrôjo das conquistas,
O grandes sempre, ó imortais Paulistas!
Embora vós, ninfas do Tejo, embora
Cante do Lusitano a voz sonora
Os claros feitos do seu grande Gama;
Dos meus Paulistas honrarei a fama.
Eles a fome e sede vão sofrendo,
Rotos e nus os corpos vêm trazendo, 
Na enfermidade a cura lhes falece, 
E a miséria por tudo se conhece; 
Em seu zelo outro espírito não obra 
Mais que o amor do seu rei: isto lhes sobra.

Canto VIII
Eulina, que nas graças não receia
Competir co'a deidade que o mar cria,
De transparente garça se vestia, 
Toda de flores de ouro matizada:
A cabeça de pedras tem toucada,
Deixando retratarem-se as estrelas
Em seus olhos; tão ricas, como belas
Muitas ninfas em roda a estão cercando,
Nas lindas mãos nevadas sustentando
Os tesouros, que oculta e guarda a terra.
(Tristes causas do mal, causas da guerra!)
Niseia em uma taça oferecia
Um monte de custosa pedraria,
Em que estão misturados os diamantes,
Co'as safiras azuis, e co's brilhantes
Topázios co's rubis, cotas esmeraldas,
Que servem de esmaltar essas grinaldas,
De que as ninfas do rio ornam a frente.
Em outra taça de metal luzente
Copioso monte apresentava Loto
Por extremo formosa; desde o roto
Seio do rio o louro pó juntara;
Dele costuma usar Eulina clara
Para dar novo lustre a seus cabelos:
Parece que a fadiga dos martelos
Batera o mesmo pó coalhado ao fogo,
Pois deixada esta taça e olhando logo
Para outra, que Licondra na mão tinha, 
Nela de barras mil um monte vinha, 
Em que o divino pó se convertera.

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