Introdução
Machado de Assis: O "Bruxo" que Hackeou a Alma
Humana (e por que ele ainda é mais moderno que você)
Vivemos em uma era de "marcas pessoais",
algoritmos de validação e filtros de Instagram. Acreditamos piamente que
estamos na vanguarda da construção de identidade, mas a verdade é que, muito
antes do primeiro código ser escrito no Vale do Silício, um homem já havia
hackeado a engenharia social da nossa vaidade. Joaquim Maria Machado de Assis
não foi apenas um escritor; foi um analista cirúrgico que, do alto do seu
gabinete no Rio de Janeiro, decifrou os bugs da psique humana com uma precisão
que faria qualquer desenvolvedor contemporâneo chorar de inveja.
Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis) nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. De origem pobre, era filho de um brasileiro com uma açoriana. Ele teve uma irmã mais nova, que faleceu com quatro anos, em 1845. Quatro anos depois, ficou órfão de mãe.
Em 1854, o pai do escritor se casou pela segunda vez. A madrasta de Machado de Assis se chamava Maria Inês da Silva, e foi para ele uma segunda mãe. Dois anos depois, em 1856, o autor publicou seu primeiro poema, intitulado “Ela”, no jornal Marmota Fluminense. Ainda em 1856, passou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional.
Em seguida, no ano de 1858, trabalhou como revisor na livraria do jornalista e escritor Paulo Brito (1809-1861). Nesse ano, também iniciou seus estudos de francês e latim. No ano seguinte, trabalhou como crítico teatral para a revista O Espelho. Já em 1860, passou a escrever para periódicos como Diário do Rio de Janeiro e A Semana Ilustrada.
Também escreveu para o periódico literário O Futuro, em 1862. Cinco anos depois, em 1867, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa e passou a trabalhar no Diário Oficial. Já em 1869, Machado de Assis se casou com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835-1904).
A nomeação do autor para trabalhar na Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas ocorreu em 1873. Paralelamente ao serviço público, ele escrevia seus textos literários. Assim, Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado em 1881, sendo um de seus romances mais famosos.
Em 1888, recebeu o título de Oficial da Ordem da Rosa. A essa altura, já era um romancista bastante conhecido, e, além de suas poesias, peças de teatro e contos, também escrevia crônicas, publicadas em diversos periódicos da época. Era, portanto, um homem bem-sucedido, apesar de que enfrentava preconceito por ser negro, gago e sofrer de epilepsia.
Ficou bastante abalado com a morte da esposa, em 1904. Assim, em 1906, escreveu o soneto “A Carolina”, em homenagem a ela. Dois anos depois, tirou licença do trabalho para cuidar da saúde, e morreu em 29 de setembro de 1908, no Rio de Janeiro. Em seus últimos momentos, teve o carinho do escritor Mário de Alencar (1872-1925), que era como um filho para o autor.
→ Machado de Assis e a Academia Brasileira de Letras
Machado de Assis foi o principal fundador da Academia Brasileira de Letras, em 15 de dezembro de 1896. No dia 20 de julho do ano seguinte, a ABL foi inaugurada e o escritor se tornou o primeiro presidente da instituição, além de ocupar a cadeira de número 23.
Características da obra de Machado de Assis
Machado de Assis foi o principal representante do realismo brasileiro. Ele é mais conhecido pelos livros de sua segunda fase, caracterizada, principalmente, pela crítica à idealização romântica. Veja, a seguir, sobre suas duas fases.
Primeira fase: o narrador se entrega à subjetividade romântica, mostra amores idealizados e heroínas perfeitas. Uma característica comum às obras românticas de Machado de Assis é a questão da ascensão social, relacionada a alguns personagens. A ironia está presente, não sendo exclusividade de seus livros realistas.
Segunda fase: os romances realistas do autor fazem uso da ironia para criticar a elite burguesa, mostrada como corrupta, hipócrita e interesseira. Para a análise psicológica dos personagens, a narrativa apresenta o monólogo interior, e possui uma temática típica desse tipo de romance, isto é, o adultério. Como o realismo é um estilo de época que valoriza a razão em detrimento da emoção, a linguagem das obras realistas é mais objetiva.
Como explicar o "fenômeno Machado"? No Rio de
Janeiro do século XIX, uma sociedade de castas rígidas, escravocrata e
asfixiada pelo determinismo europeu, nasce um jovem negro, gago, epilético,
neto de escravizados alforriados e sem educação formal. O roteiro biográfico da
época — e as teorias de "produto do meio" — ditavam que ele seria, na
melhor das hipóteses, um figurante invisível na história do Império.
Contudo, Machado subverteu o sistema. Ele não apenas
sobreviveu às margens; ele as redesenhou, provando que o protagonismo
individual é o maior glitch de uma sociedade que tenta prever destinos com base
em origens. O "Bruxo" nos deixou um aprendizado contraintuitivo: a
circunstância é o hardware, mas a vontade é o software que pode reprogramar
tudo.
A Improbabilidade como Superpoder: O Autodidatismo
Radical
Machado de Assis é o exemplo supremo do homem que se
"fez por si mesmo", uma afronta direta ao determinismo biológico que
dominava os círculos intelectuais de sua época. Esqueça a lenda romântica de
que ele aprendeu francês com um forneiro de padaria; a pesquisa histórica
rigorosa nos mostra algo muito mais radical: ele aprendeu sozinho. Sua
verdadeira universidade foi o Gabinete Português de Leitura, onde
devorou 12 mil volumes, dominando o francês, o inglês, o alemão e o grego por
conta própria.
Ao traduzir Poe e Shakespeare enquanto trabalhava na
tipografia — a porta de entrada tecnológica da informação no século XIX —,
Machado não estava apenas aprendendo línguas; ele estava coletando ferramentas
para desmontar a mediocridade nacional. Seu sucesso foi visto como uma
"traição" ao pacto tácito de mediocridade da elite. Como ele mesmo
definia através de sua ironia fina, o brilho alheio desperta a "inveja da
admiração": um esforço coletivo de rebaixar o gênio ao nível comum para
que a sociedade não tenha que admitir sua própria estagnação.
"A inveja da admiração é uma tentativa de rebaixar o
outro ao seu nível, em vez de elevar-se até ele."
A eterna pergunta "Capitu traiu ou não traiu?" é o
maior clickbait da nossa história literária. Machado não escreveu um
drama sobre adultério; ele construiu um tribunal unilateral. Em Dom Casmurro,
ele nos apresenta o "narrador não confiável" em seu estado mais
perverso. Bento Santiago, o advogado de formação, não está nos contando uma
história — ele está apresentando uma petição inicial.
Diferente da obra de Shakespeare, onde o leitor sabe que Desdêmona é inocente, Machado nos nega o contra-contraditório. Bentinho é um Othello que não precisa de um Iago externo; ele é o seu próprio vilão manipulador. Ele edita memórias, distorce olhares "oblíquos e dissimulados" e nos convence de uma culpa baseada puramente em semelhanças físicas e paranoias. A lição é moderna e brutal: somos todos editores de nossas próprias timelines, apagando a perspectiva do outro para nos sentirmos civilizados enquanto cometemos assassinatos de reputação em nossos tribunais íntimos
A Dualidade Humana: A Alma Exterior e a Franja de Veludo
Através de contos como "A Igreja do Diabo" e
"O Espelho", Machado expõe que a identidade humana é uma interface
volátil. Na sua tese das "duas almas", ele explica que possuímos uma
alma interna e uma Alma Exterior — aquela que depende inteiramente do
reconhecimento alheio e dos títulos sociais.
No conto "O Espelho", o Alferes que se vê sozinho
na fazenda descobre que, sem o olhar dos escravos ou a farda militar, sua
imagem se torna "diluída e esfumaçada". Ele só recupera a nitidez de
si mesmo quando veste o uniforme diante do espelho. Machado antecipou o drama
dos influenciadores modernos: se o "outro" não nos curte, nós
deixamos de existir. Somos seres duais, feitos de "mantos de algodão com
franjas de veludo", onde o absoluto não existe. Até no inferno machadiano,
os pecadores sentem a tentação de praticar virtudes às escondidas, pois o homem
é uma contradição indomável.
Músicas Inspiradas em poesias de Machdo de Assis. Machado também escreveu poesia e aqui nestes vídeos tem alguns poemas que adaptei para músicas. Erro é teu que é um poema e dois pemas Lágrimas de cera e fé que deram origens a música Lágrimas de Fé.
Machado não escrevia por impulso; ele jogava. Enxadrista de
alto nível, ele transferiu a lógica do tabuleiro para o papel. Mas o grande
salto ocorreu após uma crise de saúde em Nova Friburgo, aos 40 anos. Ali, entre
a retinite e a epilepsia, o Machado romântico morreu para dar lugar ao escritor
cerebral e cético.
O resultado foi o movimento mais disruptivo da literatura
lusófona: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aqui, Machado faz o
"hacking" definitivo da narrativa: ele cria o defunto autor.
Note a diferença cirúrgica: ele não é um "autor defunto" (um escritor
que morreu), mas um "defunto autor" (um morto que resolveu escrever).
Ao se posicionar além-túmulo, ele ganha a liberdade de usar a "pena da
galhofa e a tinta da melancolia" para escancarar o egoísmo das elites sem
medo do cancelamento. Ele antecipa os lances do leitor, quebra a quarta parede
e nos trata como peças em um jogo de xadrez onde ele sempre está cinco
movimentos à frente.
A Sátira das Instituições: Penélopes tecendo o Vazio
Em "A Sereníssima República", Machado usa uma
alegoria de aranhas para ridicularizar nossa fé cega em reformas
institucionais. Enquanto as aranhas trocam o formato do "saco
eleitoral" e revisam as leis gramaticais de seus candidatos, a corrupção
permanece intacta.
A crítica de Machado é de um cinismo cirúrgico: mudar as
leis (o saco) é um exercício inútil se os homens (a farinha) continuarem os
mesmos. Ele nos descreve como as "Penélopes do Império", tecendo e
destecendo intermináveis burocracias enquanto esperamos por um
"Ulisses" (a sabedoria) que nunca chega. Para Machado, o progresso
linear é uma ilusão; o que chamamos de civilização é apenas uma troca de roupa
que jamais altera a pele de bárbaro que escondemos por baixo.
Conclusão: O Sorriso Irônico que Atravessa Séculos
Machado de Assis não é um autor de bustos de mármore ou de
leituras obrigatórias de colégio; ele é o analista forense da nossa hipocrisia
social. Seu legado é um sorriso irônico que nos convida à lucidez em um mundo
saturado de aparências. Ele nos ensinou que a vida é um xadrez onde o tempo
sempre nos dará o xeque-mate final, mas a forma como jogamos a partida — e como
narramos nossos próprios erros — é o que define nossa humanidade.
Em um mundo de espelhos digitais e almas exteriores pedindo
socorro por validação, a busca pela "alma interior" proposta pelo
Bruxo torna-se um ato de resistência.
E você? Olhando-se hoje no espelho, qual parte da sua
identidade é apenas um "manto de veludo" escondendo uma "franja
de algodão"?
Resumindo a Literatura
Maria Aparecida de Almeda
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