sábado, 3 de outubro de 2026

Jornal Resumindo a Literatura Machado de Assis: o mestre que dissecou a alma brasileira





Introdução

Machado de Assis: O "Bruxo" que Hackeou a Alma Humana (e por que ele ainda é mais moderno que você)

Vivemos em uma era de "marcas pessoais", algoritmos de validação e filtros de Instagram. Acreditamos piamente que estamos na vanguarda da construção de identidade, mas a verdade é que, muito antes do primeiro código ser escrito no Vale do Silício, um homem já havia hackeado a engenharia social da nossa vaidade. Joaquim Maria Machado de Assis não foi apenas um escritor; foi um analista cirúrgico que, do alto do seu gabinete no Rio de Janeiro, decifrou os bugs da psique humana com uma precisão que faria qualquer desenvolvedor contemporâneo chorar de inveja.



Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis) nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. De origem pobre, era filho de um brasileiro com uma açoriana. Ele teve uma irmã mais nova, que faleceu com quatro anos, em 1845. Quatro anos depois, ficou órfão de mãe.

Em 1854, o pai do escritor se casou pela segunda vez. A madrasta de Machado de Assis se chamava Maria Inês da Silva, e foi para ele uma segunda mãe. Dois anos depois, em 1856, o autor publicou seu primeiro poema, intitulado “Ela”, no jornal Marmota Fluminense. Ainda em 1856, passou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional.

Em seguida, no ano de 1858, trabalhou como revisor na livraria do jornalista e escritor Paulo Brito (1809-1861). Nesse ano, também iniciou seus estudos de francês e latim. No ano seguinte, trabalhou como crítico teatral para a revista O Espelho. Já em 1860, passou a escrever para periódicos como Diário do Rio de Janeiro e A Semana Ilustrada.

Também escreveu para o periódico literário O Futuro, em 1862. Cinco anos depois, em 1867, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa e passou a trabalhar no Diário Oficial. Já em 1869, Machado de Assis se casou com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835-1904).

A nomeação do autor para trabalhar na Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas ocorreu em 1873. Paralelamente ao serviço público, ele escrevia seus textos literários. Assim, Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado em 1881, sendo um de seus romances mais famosos.

Em 1888, recebeu o título de Oficial da Ordem da Rosa. A essa altura, já era um romancista bastante conhecido, e, além de suas poesias, peças de teatro e contos, também escrevia crônicas, publicadas em diversos periódicos da época. Era, portanto, um homem bem-sucedido, apesar de que enfrentava preconceito por ser negro, gago e sofrer de epilepsia.

Ficou bastante abalado com a morte da esposa, em 1904. Assim, em 1906, escreveu o soneto “A Carolina”, em homenagem a ela. Dois anos depois, tirou licença do trabalho para cuidar da saúde, e morreu em 29 de setembro de 1908, no Rio de Janeiro. Em seus últimos momentos, teve o carinho do escritor Mário de Alencar (1872-1925), que era como um filho para o autor.

→ Machado de Assis e a Academia Brasileira de Letras

    Machado de Assis foi o principal fundador da Academia Brasileira de Letras, em 15 de dezembro de 1896. No dia 20 de julho do ano seguinte, a ABL foi inaugurada e o escritor se tornou o primeiro presidente da instituição, além de ocupar a cadeira de número 23.



    Características da obra de Machado de Assis

    Machado de Assis foi o principal representante do realismo brasileiro. Ele é mais conhecido pelos livros de sua segunda fase, caracterizada, principalmente, pela crítica à idealização romântica. Veja, a seguir, sobre suas duas fases.

    • Primeira fase: o narrador se entrega à subjetividade romântica, mostra amores idealizados e heroínas perfeitas. Uma característica comum às obras românticas de Machado de Assis é a questão da ascensão social, relacionada a alguns personagens. A ironia está presente, não sendo exclusividade de seus livros realistas.

    • Segunda fase: os romances realistas do autor fazem uso da ironia para criticar a elite burguesa, mostrada como corrupta, hipócrita e interesseira. Para a análise psicológica dos personagens, a narrativa apresenta o monólogo interior, e possui uma temática típica desse tipo de romance, isto é, o adultério. Como o realismo é um estilo de época que valoriza a razão em detrimento da emoção, a linguagem das obras realistas é mais objetiva.



    Como explicar o "fenômeno Machado"? No Rio de Janeiro do século XIX, uma sociedade de castas rígidas, escravocrata e asfixiada pelo determinismo europeu, nasce um jovem negro, gago, epilético, neto de escravizados alforriados e sem educação formal. O roteiro biográfico da época — e as teorias de "produto do meio" — ditavam que ele seria, na melhor das hipóteses, um figurante invisível na história do Império.

    Contudo, Machado subverteu o sistema. Ele não apenas sobreviveu às margens; ele as redesenhou, provando que o protagonismo individual é o maior glitch de uma sociedade que tenta prever destinos com base em origens. O "Bruxo" nos deixou um aprendizado contraintuitivo: a circunstância é o hardware, mas a vontade é o software que pode reprogramar tudo.

    A Improbabilidade como Superpoder: O Autodidatismo Radical

    Machado de Assis é o exemplo supremo do homem que se "fez por si mesmo", uma afronta direta ao determinismo biológico que dominava os círculos intelectuais de sua época. Esqueça a lenda romântica de que ele aprendeu francês com um forneiro de padaria; a pesquisa histórica rigorosa nos mostra algo muito mais radical: ele aprendeu sozinho. Sua verdadeira universidade foi o Gabinete Português de Leitura, onde devorou 12 mil volumes, dominando o francês, o inglês, o alemão e o grego por conta própria.

    Ao traduzir Poe e Shakespeare enquanto trabalhava na tipografia — a porta de entrada tecnológica da informação no século XIX —, Machado não estava apenas aprendendo línguas; ele estava coletando ferramentas para desmontar a mediocridade nacional. Seu sucesso foi visto como uma "traição" ao pacto tácito de mediocridade da elite. Como ele mesmo definia através de sua ironia fina, o brilho alheio desperta a "inveja da admiração": um esforço coletivo de rebaixar o gênio ao nível comum para que a sociedade não tenha que admitir sua própria estagnação.

    "A inveja da admiração é uma tentativa de rebaixar o outro ao seu nível, em vez de elevar-se até ele."



    A eterna pergunta "Capitu traiu ou não traiu?" é o maior clickbait da nossa história literária. Machado não escreveu um drama sobre adultério; ele construiu um tribunal unilateral. Em Dom Casmurro, ele nos apresenta o "narrador não confiável" em seu estado mais perverso. Bento Santiago, o advogado de formação, não está nos contando uma história — ele está apresentando uma petição inicial.

    Diferente da obra de Shakespeare, onde o leitor sabe que Desdêmona é inocente, Machado nos nega o contra-contraditório. Bentinho é um Othello que não precisa de um Iago externo; ele é o seu próprio vilão manipulador. Ele edita memórias, distorce olhares "oblíquos e dissimulados" e nos convence de uma culpa baseada puramente em semelhanças físicas e paranoias. A lição é moderna e brutal: somos todos editores de nossas próprias timelines, apagando a perspectiva do outro para nos sentirmos civilizados enquanto cometemos assassinatos de reputação em nossos tribunais íntimos

    A Dualidade Humana: A Alma Exterior e a Franja de Veludo

    Através de contos como "A Igreja do Diabo" e "O Espelho", Machado expõe que a identidade humana é uma interface volátil. Na sua tese das "duas almas", ele explica que possuímos uma alma interna e uma Alma Exterior — aquela que depende inteiramente do reconhecimento alheio e dos títulos sociais.

    No conto "O Espelho", o Alferes que se vê sozinho na fazenda descobre que, sem o olhar dos escravos ou a farda militar, sua imagem se torna "diluída e esfumaçada". Ele só recupera a nitidez de si mesmo quando veste o uniforme diante do espelho. Machado antecipou o drama dos influenciadores modernos: se o "outro" não nos curte, nós deixamos de existir. Somos seres duais, feitos de "mantos de algodão com franjas de veludo", onde o absoluto não existe. Até no inferno machadiano, os pecadores sentem a tentação de praticar virtudes às escondidas, pois o homem é uma contradição indomável.

    Músicas Inspiradas em poesias de Machdo de Assis. Machado também escreveu poesia e  aqui nestes vídeos tem alguns poemas que adaptei para músicas. Erro é teu  que é um poema e dois pemas Lágrimas de cera e fé que deram origens a música Lágrimas de Fé.

     





    Vídeo sobre Machado de Assis , música de fundo letra de Cidinha de Almeida



    Podcast Sobre Machado de Assis
    Este podcast fala de Machado de Assis e suas obras.



     Machado de Assis em vídeo




    Machado não escrevia por impulso; ele jogava. Enxadrista de alto nível, ele transferiu a lógica do tabuleiro para o papel. Mas o grande salto ocorreu após uma crise de saúde em Nova Friburgo, aos 40 anos. Ali, entre a retinite e a epilepsia, o Machado romântico morreu para dar lugar ao escritor cerebral e cético.

    O resultado foi o movimento mais disruptivo da literatura lusófona: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aqui, Machado faz o "hacking" definitivo da narrativa: ele cria o defunto autor. Note a diferença cirúrgica: ele não é um "autor defunto" (um escritor que morreu), mas um "defunto autor" (um morto que resolveu escrever). Ao se posicionar além-túmulo, ele ganha a liberdade de usar a "pena da galhofa e a tinta da melancolia" para escancarar o egoísmo das elites sem medo do cancelamento. Ele antecipa os lances do leitor, quebra a quarta parede e nos trata como peças em um jogo de xadrez onde ele sempre está cinco movimentos à frente.

    A Sátira das Instituições: Penélopes tecendo o Vazio

    Em "A Sereníssima República", Machado usa uma alegoria de aranhas para ridicularizar nossa fé cega em reformas institucionais. Enquanto as aranhas trocam o formato do "saco eleitoral" e revisam as leis gramaticais de seus candidatos, a corrupção permanece intacta.

    A crítica de Machado é de um cinismo cirúrgico: mudar as leis (o saco) é um exercício inútil se os homens (a farinha) continuarem os mesmos. Ele nos descreve como as "Penélopes do Império", tecendo e destecendo intermináveis burocracias enquanto esperamos por um "Ulisses" (a sabedoria) que nunca chega. Para Machado, o progresso linear é uma ilusão; o que chamamos de civilização é apenas uma troca de roupa que jamais altera a pele de bárbaro que escondemos por baixo.

    Conclusão: O Sorriso Irônico que Atravessa Séculos

    Machado de Assis não é um autor de bustos de mármore ou de leituras obrigatórias de colégio; ele é o analista forense da nossa hipocrisia social. Seu legado é um sorriso irônico que nos convida à lucidez em um mundo saturado de aparências. Ele nos ensinou que a vida é um xadrez onde o tempo sempre nos dará o xeque-mate final, mas a forma como jogamos a partida — e como narramos nossos próprios erros — é o que define nossa humanidade.

    Em um mundo de espelhos digitais e almas exteriores pedindo socorro por validação, a busca pela "alma interior" proposta pelo Bruxo torna-se um ato de resistência.

    E você? Olhando-se hoje no espelho, qual parte da sua identidade é apenas um "manto de veludo" escondendo uma "franja de algodão"?

    Assinatura: 

    Resumindo a  Literatura

    Maria Aparecida de Almeda

    Boletim Resumindo a Literatura Da Floresta Escura ao Espelho Social: os contos de fadas entre o medo, a moral e a imaginação

     


    Introdução — Antes do “Era uma vez”

    O Gancho: Por Que Achamos que Conhecemos os Contos de Fadas (Mas Não Conhecemos)

     A maioria de nós cresceu dentro dos limites reluzentes e higienizados da "cortina mágica" da Disney. Vemos personagens como Cinderela ou A Pequena Sereia através de uma lente do conforto do século 20, mas essas versões são meramente atualizações "edulcoradas"—adoçadas—de uma realidade muito mais visceral. Antes de serem livros para o quarto das crianças, os contos de fadas eram uma tradição oral arcaica, uma narrativa polifônica compartilhada por adultos e crianças igualmente à luz tremeluzente de lareiras comunitárias. Essas histórias originais eram cruas, chocantes e muitas vezes fatalistas. Para realmente compreendê-las, precisamos realizar uma escavação literária, removendo as camadas da censura vitoriana para redescobrir a crueza psicológica que as adaptações modernas se esforçaram tanto para apagar.

    Quanto das histórias originais permaneceu nos contos que conhecemos hoje?

    A origem brutal dos contos de fadas

    Os contos funcionavam também como representação dos perigos, das inseguranças e das dificuldades das sociedades que os criaram.

    A Grande Higienização: Como os Irmãos Grimm "Limparam" o Folclore

     Wilhelm Grimm foi o principal arquiteto do conto de fadas "higienizado". Embora ele e seu irmão Jacob tenham sido folcloristas essenciais que preservaram histórias ameaçadas pelo avanço da industrialização, Wilhelm passou décadas "polindo" meticulosamente suas coletâneas. Ele removeu elementos que considerava "vulgares" ou "inadequados" para as sensibilidades da classe média em ascensão. Por exemplo, nas primeiras versões de Rapunzel, a gravidez da protagonista antes do casamento era um ponto central da trama; Wilhelm eliminou isso por completo para impor uma moralidade mais "correta". "Os contos que circulavam na tradição oral eram frequentemente chocantes do ponto de vista dos nossos critérios morais atuais. Quando foram colocados por escrito pela primeira vez... eles foram edulcorados; foram censurados para uso infantil."

     Essa transição mudou fundamentalmente o propósito do gênero. O que antes eram reflexões complexas da ansiedade social tornou-se lições morais bem definidas, nas quais a virtude era recompensada e o vício era punido com precisão mecânica.

    Inserir o vídeo Como os Irmãos Grimm Censuraram os Contos.


    O próprio sentido dos contos foi sendo deslocado para uma literatura cada vez mais moralizante e infantil.

    Do sangue ao “felizes para sempre”



    A Pequena Sereia

     Não há o casamento esperado e o destino da personagem é trágico.

    Chapeuzinho Vermelho

     A história termina com a menina devorada pelo lobo.

    Cinderela e a menina das cinzas

    O encanto e transformação, aparece ligado a mutilação, sangue e punição nas versões dos Grimm.

    As heroínas eram realmente tão passivas?

     Muitas personagens saem do espaço seguro porque desejam conhecer, descobrir e experimentar o desconhecido. A curiosidade pode colocá-las em perigo, mas também funciona como caminho de autonomia.

    Da literatura medieval às mulheres que desafiam seu tempo



    Esse vídeo é um resumo sobre os contos de  fadas e ajuda a mostrar que a postagem não está tratando apenas de histórias infantis, mas de literatura, sociedade e representação da mulher.

    Vídeo  e letra da Música: Da floresta ao Espelho Social


    Letra da Música:

    Da Floresta Escura ao Espelho Social

    Segundo Hans  Christian Andersen escrevo com a consciência
    de criar histórias para as crianças,
    mas lembrando que os pais também ouvem
    e é preciso dar algo para suas mentes.

    Refrão
    Da floresta escura ao espelho social,
    as histórias são narradas.
    Histórias que o tempo resolveu adaptar:
    antes cruéis, hoje contos de fadas.

    Os irmãos Grimm eram compiladores,
    colhendo histórias da tradição.
    Retiraram o que a classe média
    considerava vulgar,
    e ajudaram a construir
    os contos de fadas modernos.

    Histórias higienizadas,
    virtudes exaltadas,
    vícios punidos,
    com foco cada vez maior
    no público infantil.

    Refrão
    Da floresta escura ao espelho social,
    as histórias são narradas.
    Histórias que o tempo resolveu adaptar:
    antes cruéis, hoje contos de fadas.

    Chapeuzinho Vermelho,
    em antigas versões,
    não tinha lenhador para salvar.
    A menina era devorada sem piedade:
    uma história brutal sobre o perigo,
    bem distante daquela
    que aprendemos a contar.

    Refrão

    Na versão moderna,
    Chapeuzinho é salva pelo caçador.
    Abre-se a barriga do lobo,
    salva-se também a vovozinha,
    e chega o final feliz,
    carregado de moral.

    Refrão

    Na versão original da Pequena Sereia,
    a língua é cortada,
    cada passo traz sofrimento,
    o príncipe se casa com outra
    e ela se transforma
    em espuma do mar.

    Refrão

    Na versão moderna,
    a Pequena Sereia recupera a voz,
    a bruxa é derrotada
    e ela se casa com o príncipe.
    O sofrimento dá lugar
    ao esperado final feliz.

    Refrão

    A Bela e a Fera
    também reflete a sociedade:
    casamentos arranjados,
    medos, convenções e perigos,
    uma história que dialogava
    com a realidade de seu tempo.

    Refrão

    Na versão moderna,
    é um romance mágico:
    é preciso olhar além das aparências.
    O feio torna-se belo,
    o amor vence o encantamento
    e a Fera deixa de ser fera.

    Refrão

    Os contos imprimem
    um efeito familiar
    no arquivo da nossa imaginação.

    É uma imaginação coletiva,
    onde Cinderela vira princesa,
    o sapo vira príncipe
    e até a madrasta
    pode virar boadrasta.

    Refrão
    Da floresta escura ao espelho social,
    as histórias são narradas.
    Histórias que o tempo resolveu adaptar:
    antes cruéis, hoje contos de fadas.


    O Sangue e a Espuma: Origens Trágicas vs. Finais Felizes

    Uma releitura contemporânea: A Estratégia de Branca de Neve

    Nota ao leitor: O conto apresentado a seguir não corresponde à versão original de Branca de Neve registrada pelos irmãos Grimm. Trata-se de uma releitura autoral contemporânea, criada por Cidinha de Almeida a partir do universo do conto tradicional e de pesquisas sobre os aspectos sombrios dos contos de fadas.

    Nesta nova narrativa, os papéis são subvertidos: Branca de Neve deixa de ocupar apenas o lugar da vítima e se transforma em uma personagem calculista, capaz de manipular aqueles que a cercam para alcançar seus objetivos.

    ⚠️ Conteúdo destinado a adolescentes, jovens e adultos. Não é uma adaptação para o público infantil.



     A psique moderna anseia pelo "felizes para sempre," mas os contos originais não ofereciam tal garantia. Eles eram cautelares, brutais e muitas vezes terminavam com uma finalidade trágica que o público atual consideraria traumatizante.

     * A Pequena Sereia: No texto original de Hans Christian Andersen de 1837, não há casamento. A sereia sofre a agonia de ter sua língua fisicamente cortada pela bruxa do mar e, depois de não conseguir conquistar o príncipe, dissolve-se em espuma do mar—um fim assombroso de sacrifício não correspondido.

    * Chapeuzinho Vermelho: A versão de Charles Perrault de 1697 não oferece nenhum lenhador heroico para realizar uma "cesariana" no lobo. A menina é simplesmente devorada. Variantes folclóricas ainda mais antigas incluem um perturbador "striptease" em que o lobo ordena que a menina queime suas roupas no fogo antes de se juntar a ele na cama.

    * Cinderela e o Ciclo da Menina das Cinzas: As versões dos Grimm são notoriamente "sangrentas." Para caber no sapatinho dourado, uma irmã corta os dedos dos pés enquanto a outra corta o calcanhar, e o engano delas só é revelado quando o príncipe percebe o sangue encharcando suas meias. No fim, pássaros bicam seus olhos, deixando-as cegas como punição por sua crueldade.

     A Curiosidade como Motor da Heroína

     Em vez de serem vítimas passivas esperando por um príncipe, as heroínas do folclore original são frequentemente movidas pela curiosidade—um "desejo de saber mais e viver mais." Esse motor as leva para fora da segurança do lar e rumo ao desconhecido.

     Em uma "narrativa em moldura" (narrativa de enquadramento) como Os Contos da Cantuária de Geoffrey Chaucer, vemos isso refletido na Mulher de Bath. Ela é uma personagem que defende explicitamente a soberania feminina sobre os maridos e o direito de satisfazer seus próprios desejos e sua busca por conhecimento. Seja a obsessão da Pequena Sereia pelo "mundo dos homens" ou uma princesa abrindo uma porta proibida, a curiosidade é a ponte para a soberania, mesmo quando essa ponte é feita de espinhos.

    O Mapa Psicológico: A Floresta e o Lar

     A estudiosa Maria Tatar sugere que os contos de fadas se distinguem dos mitos porque possuem um "caráter terrestre." Enquanto os mitos lidam com grandes guerras e deuses celestiais, os contos de fadas são "domésticos"—trazendo a magia para a cozinha, a aldeia e os bosques locais. A "Floresta" nessas histórias é um mapa psicológico dos obstáculos da mente.

     * João e Maria: Essa narrativa é movida pelo "medo do abandono," possivelmente o terror mais primordial da infância.

    * A Luta Doméstica: Ao se concentrarem na luta por "romance e riquezas" dentro de um cenário de aldeia, essas histórias oferecem um caminho para sair da floresta metafórica e voltar à segurança do lar.

     "Os contos de fadas são íntimos e pessoais... dando um caráter terrestre aos mitos e pensando em termos humanos em vez de heroicos."

    De Feras a Bots: Por Que os Contos de Fadas São na Verdade Ficção Científica Moderna

     O antigo motivo do "noivo animal," visto em A Bela e a Fera ou no mito de Eros e Psiquê, lidava com a ansiedade diante do "outro desconhecido." Hoje, nossos medos mudaram do biológico para o tecnológico, mas a estrutura narrativa permanece idêntica.

     * Ansiedade Antiga (O Outro Animal): Na versão original de A Bela e a Fera, a história refletia os terrores muito reais que as mulheres sentiam em relação a casamentos arranjados com homens desconhecidos que lhes pareciam "feras".

    * Projeção Moderna (O Outro de Silício): Em filmes como Avatar, vemos um romance moderno entre espécies em que a "fera" é um híbrido alienígena. Em Ela de Spike Jonze, a "fera" é um sistema operacional.

    * A Mudança: Já não tememos o mundo animal; projetamos nossas ansiedades sobre conexão nas máquinas que criamos.

    O Poder da "Linguagem dos Animais" e do Azarão

     O folclore sempre foi o domínio do azarão. Personagens que são "pequenos" ou "ignorantes" frequentemente triunfam por meio de conhecimento secreto ou astúcia.

      Jack e a Linguagem dos Animais: O pai de Jack quase mandou matá-lo depois que um pássaro profetizou que os pais um dia serviriam Jack (o pai oferecendo água para suas mãos e a mãe uma toalha). A educação "inútil" de Jack nas línguas dos cães, sapos e pássaros—desprezível para seu pai—acaba permitindo que ele salve um reino e ascenda até se tornar o Papa.

    * Uma Dúzia de Uma Só Vez (O Alfaiate Valente): A ironia desse conto muitas vezes se perde: a "dúzia" que o alfaiate matou eram apenas moscas atraídas por sua geleia. Ao bordar esse "feito" em seu cinto, ele usa pura astúcia e deturpação para derrotar gigantes, um unicórnio e um javali, provando que o status muitas vezes é uma questão de marketing inteligente.

     Conclusão: O Eco Arquetípico

     Os contos de fadas permanecem atemporais porque são arquetípicos; são os sonhos recorrentes da raça humana. Eles fornecem um mapa para as "florestas" internas pelas quais todos precisamos navegar. Estejamos enfrentando o medo do abandono, a busca pela soberania ou o "desconhecido" invasivo de uma era digital, essas histórias oferecem um caminho para atravessá-los.

     Da próxima vez que você encontrar um "felizes para sempre," pergunte a si mesmo o que foi cortado para torná-lo assim. Ao revisitarmos o "sangue e a espuma" das narrativas originais, encontramos um reflexo muito mais honesto, terrestre e profundo do que significa ser humano em um mundo que muitas vezes é tão brutal quanto mágico. De qual floresta você está tentando sair hoje?

    Quando encontramos um “felizes para sempre”, será que ainda conseguimos imaginar tudo o que precisou ser retirado da história para que ele chegasse até nós?


    Assinatura:

    Resumindo a Literatura

    Maria Aparecida de Almeida

    Jornal Resumindo a Literatura Machado de Assis: o mestre que dissecou a alma brasileira

    Introdução Machado de Assis: O "Bruxo" que Hackeou a Alma Humana (e por que ele ainda é mais moderno que você) Vivemos em uma er...