quarta-feira, 1 de julho de 2026

Revista Resumindo a Literatura — 4ª edição Marilene Godinho: uma voz feminina na literatura e na cultura de Caratinga

 



 Editorial

O Arquiteto do Alfabeto: Marilene Godinho e o Castelo Encantado da Leitura

Para uma criança, o primeiro encontro com uma página de texto pode ser um momento de profunda estranheza — um emaranhado de símbolos abstratos e estáticos que ainda não aprenderam a falar. No entanto, para Marilene Godinho, premiada poeta e educadora de Caratinga, Minas Gerais, esses símbolos estão longe de ser estáticos. Em suas mãos, o alfabeto transforma-se em um conjunto de chaves vivas, cada uma cuidadosamente forjada para abrir o que ela chama de "Castelo Encantado da Leitura".

Godinho, membro da Academia Feminina Mineira de Letras e guardiã das emoções humanas, dedicou sua carreira a construir pontes entre a necessidade pedagógica e as elevadas dimensões da imaginação. Sua obra não é apenas um método de alfabetização; é uma intervenção cultural. Ao transformar o ato mecânico da decodificação em uma aventura vibrante e emocional, ela passou décadas garantindo que a jornada da letra ao significado fosse marcada pelo encantamento, e não pelo esforço.

O Alfabeto como Aventura: Antropomorfizando o ABC

Em sua obra seminal, *Cada Letra Uma Aventura*, Godinho utiliza o poderoso recurso da antropomorfização para dissolver a frieza clínica do alfabeto. Ela compreende que brincar é a forma mais rigorosa de aprender; ao atribuir às letras características humanas, formas físicas e apetites familiares, cria um vínculo emocional imediato entre o estudante e a escrita.

Essa síntese visual e poética permite que as crianças reconheçam o alfabeto por meio de metáforas encontradas em suas próprias vidas e no cosmos:

A: Visualizado como o telhado inclinado de uma casinha de sapê, firme e acolhedor, mas curiosamente sem chaminé.

B: A própria letra torna-se um "comilão", com duas barrigas enormes, cheias da fantasia de quem exagerou no sorvete de chocolate ou no arroz com feijão.

C: Uma fina lua crescente passeando pelo céu. Em um toque de profundidade metaliterária, Godinho a descreve como "luar de papel", lembrando sutilmente ao leitor que a magia que contempla nasce justamente da página que tem em mãos.

D: Uma letra "gordinha" que carrega sorte por todos os lados. Godinho relaciona explicitamente sua forma à palavra, observando que "comigo se escreve dado", situando a letra no contexto familiar de uma brincadeira.

Essa abordagem faz muito mais do que facilitar a memorização. Ela transforma a relação da criança com a linguagem. Quando uma letra é uma amiga faminta ou um céu iluminado pela lua, a barreira para a alfabetização é substituída por um convite para brincar.

O "Passeio de Pipa" da Leitura

A filosofia de Godinho encontra sua melhor expressão em sua definição poética da experiência da leitura. Ela vê a alfabetização não como um destino estático, mas como um veículo de libertação plena.

"Ler é passeio de pipa a voar na imensidão. Essa viagem me faz sabidinha ou sabidão."

Ao comparar a leitura a um "passeio de pipa", Godinho enfatiza a leveza e a perspectiva que a alfabetização proporciona. Trata-se de uma viagem por uma "imensidão" na qual o leitor está no controle, preso à realidade, mas voando muito acima dela. Essa perspectiva transforma o estudante de receptor passivo de informações em explorador ativo do "Castelo Encantado", onde as palavras espiam pelas janelas para contar histórias que, de outra forma, permaneceriam ocultas.

Um Legado de 36 Histórias (e Contando)

Nascida em 1941, a influência de Marilene Godinho está alicerçada em uma carreira prolífica que a consolidou como pioneira da literatura regional. No cenário cultural de Minas Gerais, sua obra tornou-se um "farol literário", transformando o contexto local de Caratinga em um ponto de reconhecimento nacional.

Ao fazer a transição de professora dedicada para um dos grandes nomes da literatura infantil brasileira, ela publicou 36 obras. Sua bibliografia constitui uma tapeçaria de sensibilidade em constante evolução, incluindo títulos como *Balão Azul*, *O Menino Palhaço* e a querida *Lua de Rapadura*, além de sua continuação, *Lua de Rapadura 2*.

Suas contribuições foram reconhecidas com o prestigioso Prêmio Nacional de Poesia Cora Coralina da Bahia. Essa homenagem evidencia sua capacidade de entrelaçar sentimentos humanos complexos em versos acessíveis, demonstrando que uma voz regional pode expressar verdades universais.

Impacto Além das Páginas: Das Salas de Aula aos Impérios Educacionais

O alcance da obra de Godinho vai muito além das capas de seus livros. Ela é um pilar cultural em Caratinga, influenciando tanto as novas gerações de leitores quanto os líderes de grandes instituições educacionais.

Leandro Xavier Timóteo, fundador do Grupo Faveni — um império educacional que atende mais de 500 mil estudantes — destacou publicamente a profundidade das contribuições intelectuais e artísticas de Godinho. Para Timóteo, suas palavras representam os "grandes corações" e o trabalho árduo necessários para construir trajetórias educacionais verdadeiramente significativas.

Talvez seu impacto mais emocionante, contudo, possa ser observado durante a "Tarde Lírica", na Escola Jairo Grossi. Ali, os estudantes respondem à sua obra tornando-se eles próprios autores, criando poemas em sua homenagem. Como reflete Godinho:

"Meus momentos mais especiais são com as crianças... Fico surpresa com a forma como elas leem e conhecem todos os meus livros. Talvez, com isso, eu possa abrir caminhos para que apreciem outros livros na formação do hábito da leitura."

Uma Imensidão Contemplável

Marilene Godinho permanece uma força vital na cultura brasileira porque compreende que a palavra escrita é uma entidade viva, capaz de tocar, transformar e eternizar a experiência humana. Sob seu olhar, o alfabeto não é uma tarefa a ser dominada, mas um mundo a ser habitado.

Ao refletirmos sobre seu legado, somos lembrados de que o "Castelo Encantado" que ela construiu para as crianças é um lugar que jamais precisamos realmente abandonar. O passeio de pipa continua disponível para qualquer pessoa disposta a olhar para uma letra e enxergar nela uma aventura.

Como nós, adultos, poderíamos ir além da utilidade funcional das palavras para redescobrir o "luar de papel" escondido em nossas próprias vidas?

 Quem é Marilene Godinho?


Marilene Pereira Godinho Soares (Caratinga, 26 de agosto de 1941) é uma poetisa brasileira.
Godinho estudou no colégio Nossa Senhora do Carmo, onde cursou o primário, ginasial, normal e científico. Na faculdade de Santa Úrsula, no estado do Rio de Janeiro, fez o curso de pedagogia, que não chegou a concluir. Cursou Espanhol no Centro Cultural Brasil-Espanha em Belo Horizonte. Cursou Letras Português - Francês na Faculdade de Filosofia de Caratinga - MG.
Realiza significativa atividade intelectual e artística em Caratinga, colaborando no estímulo à educação e ao desenvolvimento das crianças.


 A escritora e sua cidade

 A autora realiza eventos no lançamento de seus livros e em homenagens a figuras ilustres da terra. Num intercâmbio de artes, já trouxe a Caratinga o Grupo de Balé Cristina Helena, o grupo folclórico Aruanda, a Escola de Dança Marcela Coelho e a Orquestra Sinfônica de Diamantina. Nessas oportunidades, apresenta artistas da cidade dando ênfase à poesia na declamação de poemas feita pelas crianças das escolas. Ministra oficinas de produção de textos às crianças de Caratinga e região. Palestras sobre a arte de conviver nos cursos Cleber Godinho de oftalmologia, que reúne médicos do Brasil e do exterior. Ministrou curso de produção de texto aos professores da DRE; curso sobre alfabetização e produção de texto aos professores da SER; curso de ética às professoras da rede municipal e aos funcionários da prefeitura de Santa Bárbara do Leste. Ganhou festival da canção em Raul Soares (1976), classificando-se em 1º, 2º e 3º lugares. Compõe músicas populares e hinos, como o hino a São João Batista em Caratinga, o hino de Inhapim, da escola Afonso Vaz de Raul Soares, de São Domingos das Dores e Lions Clube – Distrito L XI. É cidadã honorária de Inhapim e de São Domingos das Dores. Troféus e comendas Prêmio Cecília Meireles – Itabira. Moção de aplauso pela Câmara Municipal de Caratinga. Diploma de honra ao mérito concedido pelo SESU. Destaque do ano pelo jornal de Caratinga, pelo colunista Tião de Lima. Mulheres de Ouro, promoção do jornalista Tião de Lima. Troféu Santo Forte, concedido pela viação Rio Doce, pelos vinte anos de literatura. É personalidade do século, concedido pelo jornal de Caratinga. Mérito Legislativo concedido pela Câmara Municipal de Caratinga. Participou do júri que elegeu a garota Glamour de Minas Gerais, acontecido em congonhas, numa promoção do jornalista Nicolau Neto. Foi jurada do concurso literário promovido pela parte social do Hospital Mater Dei. Escreve há trinta anos para o Jornal de Caratinga. Publicou artigos na revista Caratinga. Participou da Bienal do Livro, São Paulo e da Semana do Livro, Juiz de Fora. Prêmios Venceu o primeiro concurso de contos de Viçosa. E o Prêmio Nacional de Poesia Cora Coralina, da Bahia Foi patronesse do I e II Prêmio de Literatura Infantil “Marilene Godinho” – 2009-2010, promovido pela Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Políticas para a Juventude – Prefeitura de Caratinga

 Obras que marcaram sua trajetória

  • Balão Azul (1978)
  • Boneca de pano (1980)
  • O menino palhaço (1982)
  • A avó que não era antiga (1983)
  • Uma canção de amor para Tiago (1985)
  • O galo que não sabia cantar (1987)
  • Lua de rapadura (1990)
  • Muidinho (1991)
  • Quem ama com fé (1992)
  • Irmão Sol, irmã Lua (1995)
  • Nas águas de meu pai (1996)
  • Hora anda, hora para (1997)
  • Gorducha (1997)
  • Gaguinho (1998)
  • É da roça (1999)
  • Menino ama menino (2000)
  • O gato que não sabia miar (2000)
  • Filha quer mãe não quer (2001)
  • Passarin (2001)
  • Pintor de rodapé ou pingo do i (2002)
  • Foguete no picadeiro (2002)
  • A grande festa (2003)
  • No reino das águas (2004)
  • Cada letra uma aventura (2005)
  • Deste amigo não me livro (2006)
  • Lua de Rapadura 2 (2008)
  • Louvação (2010)
  • Circo Alegria (2010)
  • Sabores da Mulher (2011)
  • Roupa mágica do palhaço (2013)
  • Asas de menino (2013)
  • Na garupa do sonho (2017)
  • A dança do piolho (2017)
  • Lua de rapadura 2 (2018)

A infância na literatura de Marilene

Na literatura de Marilene Godinho, a infância aparece como um território de memória, ternura e encantamento. Seus poemas revelam um olhar sensível para as pequenas experiências da vida: a saudade, a presença da família, as lembranças da cidade, os gestos simples e os afetos que permanecem no coração. Ao escrever sobre o universo infantil, Marilene não fala apenas para crianças; ela também conversa com o adulto que guarda dentro de si as marcas da infância, mostrando que a poesia é capaz de preservar lembranças, despertar sentimentos e transformar o cotidiano em beleza.

 Prêmios e reconhecimentos


 Marilene Godinho em vídeo




 Podcast especial da edição



 Slides da edição



https://gamma.app/docs/Resumindo-a-Literatura-3uips6drulr9m7r

 Homenagem musical



Por que ler Marilene Godinho hoje?

Ler Marilene Godinho hoje é reencontrar uma literatura feita de sensibilidade, memória e afeto. Sua poesia valoriza as lembranças da infância, os sentimentos simples, a presença da família, a saudade, a cidade e os pequenos acontecimentos que marcam a vida de uma pessoa.

Em um tempo em que tudo parece rápido e passageiro, a poesia de Marilene convida o leitor a parar, lembrar, sentir e observar o mundo com mais delicadeza. Seus versos mostram que a infância não fica apenas no passado: ela permanece nas memórias, nas palavras, nos afetos e nas histórias que carregamos conosco.

Ler Marilene Godinho também é valorizar uma voz feminina da literatura de Caratinga, reconhecendo a importância dos autores locais na formação cultural e afetiva de uma comunidade. Sua obra aproxima poesia, memória e identidade, mostrando que a literatura nasce também dos lugares que amamos, das pessoas que nos marcaram e das lembranças que continuam vivas dentro de nós.

Por isso, Marilene Godinho merece ser lida hoje: porque sua poesia fala ao coração, preserva memórias e ajuda crianças, jovens e adultos a perceberem a beleza escondida nas pequenas coisas da vida.

Créditos

Revista Resumindo a Literatura — 4ª Edição
Marilene Godinho: uma voz feminina na literatura e na cultura de Caratinga

Pesquisa, organização e edição:
Maria Aparecida de Almeida

Texto biográfico e organização editorial:
Elaborado a partir de pesquisas, registros biográficos, materiais já publicados sobre Marilene Pereira Godinho Soares e postagem originalmente produzida por Maria Aparecida de Almeida em 2013, posteriormente revisada, ampliada e reorganizada para esta edição especial da revista.

Autora homenageada:
Marilene Pereira Godinho Soares

Tema da edição:
Vida, obra, trajetória literária, atuação cultural e contribuição de Marilene Godinho para a literatura, a educação, a infância e a memória cultural de Caratinga.

Materiais complementares:
Vídeos, podcast, slides, imagens e demais recursos audiovisuais produzidos e organizados por Maria Aparecida de Almeida para fins literários, culturais e educativos.

Música inspirada na obra de Marilene Godinho:
Letra de Maria Aparecida de Almeida, inspirada na atmosfera poética, afetiva e memorialística presente nos poemas de Marilene Godinho.

Blog responsável pela publicação:
Resumindo a Literatura

Finalidade da publicação:
Divulgação literária, valorização da cultura caratinguense, incentivo à leitura e reconhecimento da contribuição de Marilene Godinho para a formação de leitores.

Observação editorial:
Esta publicação tem caráter cultural, educativo e literário. O material foi organizado como homenagem à escritora Marilene Godinho e como forma de preservar e divulgar sua importância para a literatura e para a memória cultural de Caratinga.

Edição e publicação:
2026

Assinatura:
Maria Aparecida de Almeida
Revista Resumindo a Literatura
Caratinga — Minas Gerais


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