domingo, 5 de julho de 2026

Jornal Resumindo a Literatura-4ª Edição-Odete Baraúna : Poesia, infância e brincadeira com a palavra

 

A autora quase invisível nas buscas digitais que escreveu para crianças, aproximando poesia, cidadania, humor, natureza, afeto e formação humana.


Introdução

Em tempos em que quase tudo parece estar registrado na internet, chama atenção encontrar uma autora com tão pouca presença digital. Ao pesquisar por Odete Rodrigues Baraúna, aparecem poucos dados, alguns registros de livros, referências escolares e informações dispersas. No entanto, essa ausência nas buscas não diminui a importância de sua obra.

Odete Rodrigues Baraúna escreveu para a infância com sensibilidade, musicalidade e atenção à formação humana. Sua poesia brinca com a palavra, provoca riso, aproxima a criança da cidadania e transforma temas importantes em versos simples, sonoros e afetivos. O material reunido mostra poemas sobre Natal, natureza, pátria, consumo consciente, trânsito, maternidade, humor e emoção infantil.

Esta edição do Jornal Resumindo a Literatura nasce como um gesto de resgate. Falar de Odete é ajudar a preservar uma parte da literatura infantil brasileira que circulou principalmente em escolas, bibliotecas, projetos de leitura e memórias de professores.



Odete Rodrigues Baraúna representa um tipo de autora que muitas vezes não aparece com destaque nos grandes estudos literários, mas esteve presente no cotidiano escolar. Sua escrita conversa com professores, crianças e famílias, porque une beleza poética e formação para a vida.

Em seus poemas, a palavra não aparece apenas para ensinar uma lição. Ela canta, dança, ri, brinca e conduz a criança ao pensamento. Por isso, sua obra merece ser retomada não apenas como material pedagógico, mas também como criação literária.


Quem foi Odete Rodrigues Baraúna?



As informações disponíveis sobre Odete Rodrigues Baraúna ainda são poucas. O relatório preparado sobre a autora destaca essa invisibilidade digital como um paradoxo: uma escritora ligada à literatura infantil e à formação escolar, mas quase apagada dos mecanismos de busca.

Seu nome aparece associado à obra Poesia pela cidadania, publicada pela Editora Scipione, e a uma produção voltada para a infância, a linguagem poética e os valores sociais. O material reunido também aponta sua formação em Letras, Pedagogia e Estudos Sociais, o que ajuda a compreender a presença da educação em sua escrita.

Odete não separa poesia e formação humana. Em sua escrita, a criança aprende sobre o mundo sem perder o encantamento, o ritmo e a fantasia da palavra.


Odete Rodrigues Baraúna e a brincadeira com a palavra

A marca mais forte da autora é a maneira como ela transforma temas simples em poesia viva. Em seus textos, há repetição, rima, musicalidade, humor, aliteração e jogo verbal.

Essa brincadeira aparece em poemas como Primavera, no qual as flores, as cores e os sons se misturam em movimentos de roda, dança e canto. A primavera não é apresentada apenas como estação do ano, mas como experiência sensorial: gira, beija, ri, gera flor e espalha vida.


Poemas em destaque



Este poema trabalha o humor, a caricatura e a crítica à vaidade. O gato aparece cheio de pose: come caviar, tem bigode de chinês, pelo perfumado e ainda “mia em inglês”. A graça está justamente no exagero. O gato tenta parecer sofisticado, mas se torna uma figura engraçada e atrapalhada.

O poema pode ser lido como brincadeira infantil, mas também como sátira social. Odete usa o riso para mostrar como a aparência, a ostentação e o orgulho podem se tornar ridículos.

          Era uma vez
          Um gato burguês

          Comia caviar
          de barriga pro ar

          Seu pêlo perfumado
          Era sempre penteado

          Bigode de chinês
          Miava em inglês


          Gostava de uma gata
          Que não lhe dava a pata
          
          Por ele suspirava
          Sofria, até suava

          O gato era burguês
          E a gata era pedrês

          Pintada em branco e preto
          Vivia ao relento.
                                                 
         
          Para o burguês  gabola
          Ela não dava bola

          Passava requebrando
          baixinho ia miando

          Miau, miau, miaaau
          Cato cara-de-pau

          Gato, enfezado
          Miou atrapalhado

          Gata exibida au au
          Miau, ai live iuau



Neste poema, Odete apresenta as cores da bandeira como símbolos de beleza, identidade e responsabilidade. O verde das matas, o amarelo do sol, o azul do céu e o branco das águas aparecem ligados à natureza brasileira.

Mas o poema não fica apenas no elogio patriótico. Ele também alerta sobre queimadas, poluição, rios, pássaros e preservação ambiental. Assim, amar a bandeira significa também cuidar do Brasil.

Bandeira tão linda!
          Bandeira do Brasil
          É verde, amarela,
          Azul de encantos mil.
          
          No céu ,
          No sol,
          Nas matas,
          As cores da Bandeira 
          Amemos com orgulho
          A pátria brasileira.

          No verde, nossas matas,
          Tão pouco preservadas,
          enfrentam tombamentos 
          e terríveis queimadas.

          O amarelo é luz
          O sol a aquecer a terra de Cabral
          O Brasil  tropical

          Azul o nosso céu
          Com aves  a voar.
          Se o ar é poluído,
          O pássaro é ferido.

          As  brancas águas
          Correm nos rios, nas cachoeiras,
         trazendo higiene pra gente brasileira.

          Cuidar da ecologia,
          Amar sua bandeira,
          viver cidadania
          É semear estrela.




O poema Mãe é um exercício bonito de sonoridade. A autora usa a repetição da letra M para construir uma imagem afetiva, múltipla e musical da figura materna.

Mãe aparece como mulher, mar, música, morada, melodia, milagre, memória, manancial, modelo, mestra, Maria, menina e maravilha. É um poema de ternura, mas também de força. A maternidade é apresentada como presença, cuidado, memória e encanto.

Mãe, mulher, mar,
          música,morada, melodia,
          malabarista, milagre monumento,
          montanha, madrugada, magia.

          Mãe, mamãe, mamãezinha,
          macieira, manacá, marmelada,
          macia, manhosa, marcante,
          manda- chuva, mandamento, manda-nada.


          Mãe, muleta, memória,
          Mãe e vó, meia-idade, meio - dia,
          Mãe bisa, meia-lua, meia- noite,
          Mãe e tia, mamata, melancia.

          Mãe, mel, mingau,
          Manto, meiguice, manancial,
          modelo, mestra, Maria,
          Menina, maior, maravilha!





Neste poema, Odete trabalha a infância, a escola e as primeiras emoções. Rogerinho não fez a tarefa nem estudou a tabuada porque está encantado por Isabela. A professora, com doçura, acolhe o sentimento do menino, mas também o orienta.

O mais interessante é que a autora mistura amor e matemática. Ela fala em multiplicar beijos, dividir carinhos e tarefas, subtrair tristezas e cuidar para que a emoção não atrapalhe os estudos.

É um poema delicado sobre educação emocional, escola e equilíbrio entre sentimento e responsabilidade.

          Minha doce professora,
          A tarefa, eu não fiz,
          Tabuada, não estudei,
          Só por causa da Isabela.
          Veja só o que ela fez:
          Se ela passa,
          O meu corpo todinho se arrepia,
          Na barriga, eu sinto uma cosquinha,
          E dispara, batendo o coração:
          Isa-bela,
          Isa- bela,
          Isa, Isa, Isa-bela,
          Na cabeça, não entra nada, não!(Bis)

          Rogerinho,
          Regue esta semente com carinho,
          Pois o amor, quando pinta, é tão bom...
          Nossa vida é feita de emoção.
          Mas, cuidado, não perca a razão.
          Tabuada, não deixe de estudar.
          Quantos beijos saberá multiplicar...
          Carinhos e tarefas dividir,
          Tristezas poderá subtrair.
          Mas, cuidado, para a bomba não explodir.
          Professora, minha doce professora...
          Rogerinho, regue essa semente com carinho...





Boneco Dançolino
é um poema cheio de movimento. O personagem tem alma de menino, acende riso, apaga dor, canta, dança e espalha amor. Ele lembra o palhaço, o Saci, o pé-de-valsa, o seresteiro e o cantador.

É um poema que conversa com a música, com o corpo e com a alegria popular. Pode ser lido como celebração da arte que consola, diverte e aproxima as pessoas.


          Sou dançolino,
          Tenho alma de menino.
          E por  onde quer que eu passe,
          acendo riso,
          apago dor.
          Já me chamaram
          de palhaço, de Saci,
          Negro enxuto,
          Pé- de- Valsa,
          Seresteiro,
          Cantador.

          Sou Pé- De- Valsa,
          Raça Negra,
          Sou poeta,
          Vida eu canto.
          E do Saci
          Algumas artes
          sei Fazer.
          Para Alegrar
          Todo aquele que , na vida,
          mesmo com alma partida,
          canta, dança
          e espalha amor.




Neste poema, a natureza vira brincadeira sonora. Margarida, girassol, beija-flor, amor-perfeito, violetas e miosótis aparecem em um jogo de palavras, cores e movimentos.

A primavera de Odete não é parada. Ela gira, ri, beija, gera flor e gera amor. É poesia para ser lida em voz alta, cantada ou dramatizada.

Margarida

Ri da vida

Enquanto

Gira, gira, o Sol

Gira-gira-girassol

                            Primavera

                           Beija-Flor
                          Amor- Perfeito
                          Beija-Amor
                          Primavera-Beija-Amor
                          Primavera-Beija- Amor

                          Cor- de - Rosa
                          Amarela
                          Tão vermelha
                           E Branca Rosa

                          Entre azuis
                          Entre lilazes
                          Vi o riso
                          E as caretas
                          dos- miosótis- e-violetas
                          dos-miosótis- e- violetas

                          Primavera
                          Ri da vida
                          Margarida
                          Beija- Flor
                          Vermelha- Rosa- Beija- Amor
                          Vermelha-Rosa-Beija- Amor

                          Violetas
                          E miosótis
                          Entre caretas
                          Giram no Sol
                          Entre- caretas-giram-no-sol 
                          Entre-caretas-giram-no-sol

                          Primavera Gira- Vida
                          Primavera Beija- Flor
                          Primavera Gera- Flor
                          Primavera Gera-Flor

                          Primavera Gira-Gera
                          Gira-Flor e Gera-Flor
                          Primavera Gera-Gira
                          Gera- Flor e Gira- Amor




O poema Olho Nele! aproxima a criança do consumo consciente. A autora fala de produto estragado, brinquedo que não funciona, pizza com bolor, data de vencimento, troco errado, propaganda enganosa, preço, qualidade e honestidade.

Odete transforma um tema sério em versos acessíveis, mostrando que cidadania também envolve atenção, responsabilidade e cuidado nas pequenas escolhas do dia a dia.

          Você compra um produto
          E ele vem estragado.
          Olho aberto,
          Fique esperto
          Para não ser esmagado.
         

                  O  brinquedo não funciona,
         A Pizza esta com bolor,
         Na data de vencimento,
         Olho vivo.
         Sim, senhor

         Se você 
         Recebe o troco
         E não confere
         Na hora,
         De repente
         Tem um erro
         E você já foi em embora.

              
         Muita propaganda
         Fala de maneira enganosa:
         Diz que tem o que não tem
         Desconfie desta prosa.
  

         Pesquise antes de comprar,
         Olhe o preço
         E olhe a qualidade.
         Não compre sem ter dinheiro.
         Viva com honestidade.




Neste poema, a autora trabalha a natureza e a denúncia ambiental. A mata aparece viva, verde, cheia de borboletas, flores e céu azul. Depois, com o desmatamento, o passarinho se cala, a borboleta é ferida, as flores ressecam e a mãe natureza chora.

É um texto de forte atualidade, porque fala de ecologia, preservação e consequência das ações humanas.

Mata, verde Mata,
          Mata do Brasil.
          Dança a borboleta
          Flores Coloridas
          Enfeitando a vida,
          A Mãe Natureza
          Pincelando o céu
          Cor Azul- Anil

                Mata, mata, mata,
            Desmata, o Brasil.
            Cala o passarinho,
            Fere a borboleta,
            Flores ressecadas
            Possuem o ar,
            A Mãe natureza
            Chora o céu cinzento
            E  o desmatamento        
     


O apagamento digital de Odete Rodrigues Baraúna

A pouca presença de Odete Rodrigues Baraúna no Google não deve ser interpretada como sinal de pouca importância. Pelo contrário, ela revela um problema maior: muitas autoras da literatura infantil brasileira permanecem pouco registradas, pouco estudadas e pouco divulgadas.

Há escritores que circularam principalmente por bibliotecas escolares, coleções infantis, projetos de leitura e práticas de professores. Com o tempo, muitos desses nomes foram ficando fora dos espaços digitais, mesmo tendo participado da formação de leitores.

Resgatar Odete é também defender a memória da literatura infantil. É reconhecer que poemas para crianças não são textos menores. Eles formam linguagem, sensibilidade, imaginação, afetividade e consciência social.


Por que apresentar Odete Rodrigues Baraúna às crianças?

Odete merece ser apresentada às crianças porque sua poesia une encantamento e formação. Ela fala de temas importantes sem transformar o poema em sermão. A criança encontra ritmo, rima, humor e imagem poética, mas também encontra valores como cuidado, cidadania, respeito, preservação ambiental, atenção no trânsito e consumo consciente.

Para pais e professores, sua obra oferece uma oportunidade de leitura afetiva e formativa. Os poemas podem ser lidos em voz alta, cantados, dramatizados, ilustrados e discutidos em rodas de conversa.


 Materiais audiovisuais :

PODCAST:

O apagamento digital de Odete Rodrigues Baraúna



Podcast para pais e professores sobre Odete Rodrigues Baraúna



A mestra que o algoritmo esqueceu



O resgate de uma mestra da poesia



 Música

A música criada para esta edição transforma o resgate da autora em canto. A letra apresenta Odete como escritora da infância, da poesia e da brincadeira com a palavra, convidando o público a conhecer uma autora que merece voltar a circular entre leitores, famílias e professores.

Música sobre Odete Rodrigues Baraúna — Versão 1



Música sobre Odete Rodrigues Baraúna — Versão 2



Caderno de Poesias de Odete Rodrigues Baraúna Para Crianças



Fechamento

Odete Rodrigues Baraúna talvez não seja um nome facilmente encontrado nas pesquisas digitais, mas sua poesia revela uma autora sensível, criativa e necessária. Em seus poemas, a infância aparece como espaço de brincadeira, imaginação, cidadania e afeto.

Entre o humor de Gato Burguês, a ternura de Mãe, a musicalidade de Boneco Dançolino, a beleza de Primavera e a consciência social de Poesia pela cidadania, encontramos uma escritora que soube falar com a criança sem abandonar a delicadeza da literatura.

Esta edição do Jornal Resumindo a Literatura é, portanto, mais do que uma postagem. É um gesto de preservação. Quando uma autora quase não aparece nas buscas, cada leitura, cada vídeo, cada música e cada registro ajudam a impedir que sua voz desapareça.



Link :Jornal Resumindo a Literatura 4ª Edição.pptx



Créditos

Pesquisa, organização e curadoria: Maria Aparecida de Almeida
Blog: Resumindo a Literatura
Material de apoio: poemas reunidos, relatório, rascunho de postagem, vídeos, podcasts e músicas sobre Odete Rodrigues Baraúna.
Autora estudada: Odete Rodrigues Baraúna
Obra em destaque: Poesia pela cidadania
Edição: Jornal Resumindo a Literatura — 4ª Edição


“A literatura também se preserva assim: quando alguém procura, encontra pouco, mas decide escrever para que outros encontrem mais.”

Com carinho e dedicação à leitura,
Maria Aparecida de Almeida
Resumindo a Literatura

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